Do avesso.

Ilustração: TRACCIAMENTI

Nestes tempos estranhos em que tudo o que é humano, de bom e de mau, se ampliou a uma escala difícil de imaginar há um mês atrás, o humanoscópio, assoberbado de inúmeras e preciosas observações, prefere para já recolher-se à introspeção. E por isso, este humanoscópio é hoje a propósito do ato de vestir.

A semana passada, saí de casa e fui a uma clínica veterinária aqui perto para comprar areia e comida de gato. Para além de ser mais tranquilo de que ir ao supermercado, permitia-me uma caminhada a pé para aproveitar um pouco do sol de primavera.

Nestes dias estranhos, em que a maior parte das horas são passadas em casa, propus-me não descurar o ato de vestir, ou pelo menos tentar…A rotina de acordar, tomar banho e arranjar-me como se fosse trabalhar normalmente, ajuda a dividir o tempo do trabalho do tempo de lazer.

Nesse dia de ida à clínica ainda passei por algumas pessoas na rua, os mais velhos, talvez por se sentirem sós cumprimentaram-me com um sonoro “boa tarde” e os mais novos evitaram até o contacto visual (observação que o humanoscópio registou para mais tarde refletir). Enquanto esperava à porta pela minha encomenda, olhei para a montra espelhada e senti-me orgulhosa da minha escolha de não me desmazelar no ato de vestir, e eis que me dou conta de que tinha vestido a camisola do avesso.

SANDRA MESTRE COSTA

 

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